“Stoicism and the Art of Happiness” – Parte I

Começarei a povoar o blog com comentários sobre esse excelente livro de Donald Robertson, que cumpre bem o papel de um guia introdutório ao Estoicismo.

Boa parte do primeiro capítulo do livro eu cobri no post anterior, “uma breve introdução ao Estoicismo”. Mas vamos relembrar os pontos mais importantes abordados até aqui.

Viver uma vida feliz, é viver uma vida de acordo com a Natureza. Isso não significa morar em uma fazenda, virar vegetariano ou sair abraçando árvores por ai. De acordo com os estóicos, o ser humano é um animal racional e social. Viver de acordo com a Natureza, nesse caso, é fazer uso de nossa principal faculdade, a razão, buscando sabedoria e o bem da sociedade (em um sentido amplo).

Uma outra faceta dessa visão, viver de acordo com a Natureza, é que devemos entender o que está e o que não está sob nosso controle. E aprender a aceitar que as coisas que não estão sob nosso controle não podem importar para definir uma boa vida ou não. Elas não são boas ou ruins. Elas são indiferentes.

Essas duas características são complementares. Precisamos de sabedoria para compreender o que está sob nosso controle e conseguir superar as adversidades geradas por aquilo que não está.

De acordo com os estóicos, a separação entre bom e mau se dá primeiro nessa divisão – o que está sobre nosso controle? O que é único ao ser humano? O que nos é imposto pelo exterior? Para conseguir as respostas dessas perguntas, precisamos buscar o auto-conhecimento, praticar a “atenção plena” (mindfulness do inglês). O interessante aqui é que, muitos que meditam ou ja meditaram, devem conhecer esse termo, que é visto como derivado do Budismo. Mas a verdade é que os estóicos tambem já adotavam práticas parecidas aqui no Ocidente.

Não existe mal a não ser o mal moral, aquele gerado pelas nossas atitudes, aquilo que está sob nosso controle. Assim como não existe nada bom fora do universo de coisas que estão sob nosso controle. Portanto, viver bem, feliz, é agir de acordo com nossa Natureza, de maneira racional e virtuosa. De acordo com o Estoicismo, uma vez que uma pessoa entende isso, ela atinge um grau de liberdade, serenidade e bem estar inigualável, pois tudo que ela precisa para ser feliz está sob seu próprio alcance. Não são bens materiais, características físicas, sociais, o passado, o futuro ou qualquer outra coisa – são apenas suas decisões, atitudes e escolhas que tomamos e fazemos a cada momento que importam.

O estoicismo, como filosofia, se divide em 3 tópicos principais: Física, Ética e Lógica. A Física, na verdade se refere ao que chamamos de metafísica e teologia hoje. Ética seria o estudo do que é certo, virtuoso e sobre o objetivo da vida. É também o estudo de distúrbios emocionais, como identificá-los e como controlá-los, em outras palavras, desenvolvimento pessoal. Por fim a Lógica, que além da lógica formal, dialética e retórica também englobava o estudo da epistemologia.

Conectados a esses 3 tópicos citados acima, os estóicos criaram 3 disciplinas distintas, cujo objetivo é trazer para vida prática os aspectos importantes desses temas.

1 – A disciplina dos Desejos e da Aversão: basicamente, devemos desejar tudo que é bom, ter aversão ao que é ruim e ser indiferente ao que é indiferente. Lembrando que o que é bom está dentro apenas do universo de coisas que estão sob nosso controle. Isso está ligado ao tópico da física (na verdade metafísica), viver de acordo com a Natureza. Essa disciplina está ligada as virtudes da coragem e do auto-controle (auto-controle diante de desejos irracionais e ao medo). Dentro dessa disciplina estão exercícios para ajudar a lidar com sofrimento emocional.

2 – A disciplina da Ação: viver de acordo com nossas obrigações, tomar as decisões apropriadas. Em suma, fazer a coisa certa perante a sociedade, nossa familia e afins. Essa disciplina está liga ao tópico da Ètica e à virtude da Justiça.

3 – Disciplina da Aceitação: avaliar cada primeira impressão, cada reação espontânea pelo que elas são e só depois de cuidadosa reflexão (em termos de ser boa ou ruim) aceitá-la ou rejeitá-la. Essa disciplina está ligada a Lógica e à virtude da Sabedoria, a aplicação de nossa razão.

Como coloca Donald Robertson em seu livro – essas disciplinas estão ligadas aos nossos sentimentos, ações e pensamentos – as 3 principais áreas de nossa experiência consciente e sobre as quais podemos aprender a exercer algum controle.

A primeira disciplina, é a mais importante, pois desejos e paixões irracionais em excesso impedem um boa vida e o progresso nas duas outras disciplinas. Por isso, a primeira disciplina é por onde começa o treinamento estóico – controle dos desejos e do medo através do auto-controle.

Aliás, lembram sobre o que eu disse no post anterior, sob o treinamento de Zenão no Cinismo? Pois bem, aqui é onde isso se reflete mais. Os cínicos se preocupavam bastante em controlar seus desejos e através de um treinamento prático muito rigoroso (viviam em condições extremamente árduas) atingiam um elevado grau de auto-controle e auto-disciplina.

Ao final do capítulo, Robertson faz um adendo que creio ser de suma importância e que agora temos o instrumental para compreender. Ao Estoicismo foi pregada a pecha de ser uma filosofia que visa reprimir e destruir as emoções. Como disse no post introdutório deste blog, eu mesmo tinha essa visão antes de me aprofundar no assunto. Porém, pelo que vimos acima, os estóicos falam em reprimir apenas as paixões excessivas (no sentido de desejos irracionais), o medo e suas consequências (sensações de prazer e dor emocionais).  Como tentei expor acima, os estóicos eram seres primordialmente sociais e se preocupavam em fazer o bem a todos. Almejavam serem livres de paixões, mas cheios de amor.

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Um comentário sobre ““Stoicism and the Art of Happiness” – Parte I

  1. Pingback: “Stoicism and the Art of Happiness” – Parte II | O caminho do estóico

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